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O poder de punir

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Com raízes nas ditaduras brasileiras, a Polícia Militar mantém uma estrutura autoritária e violenta. Em vez de proteger os cidadãos, serve aos aparatos do Estado Nashla Dahás Foto: Arquivo da Secretaria de Educação do Estado de São PauloNascida na Ucrânia durante a fuga de sua família para a América, Clarice Lispector chegou ao Brasil nos anos 20 e aqui viu sua mãe definhar lentamente em razão de uma sífilis adquirida após sofrer um estupro coletivo por soldados russos. Em 1962, ela escreve uma crônica “baseada em fatos reais” sobre um homem, de apelido Mineirinho, “um facínora”, que morreu ao levar 13 tiros, quando bastava apenas um. No primeiro, um “alívio de segurança”; o “terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me ass...

Quando o Império morreu de sede

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Em 1889, uma grave crise hídrica só foi resolvida com a mobilização do povo, uma imprensa combativa e a habilidade de um jovem engenheiro. O governo não durou muito Rodrigo Elias e Marcello Scarrone Rio de Janeiro, capital do Império, início de 1889. O clima é quente. Auge do verão, a cidade alterna períodos de calor e secura com dias de chuvas torrenciais. Não há um sistema de esgoto eficiente. Áreas alagadiças no entorno do centro urbano favorecem a proliferação de mosquitos, hospedeiros de doenças que assolam toda a população desde os tempos da colônia. No final do século XIX, médicos e cientistas já haviam percebido a relação entre epidemias tropicais e a má-gestão da água. As semanas passam, as chuvas rareiam. O calor aumenta. Com ele, a febre amarela. Aqueles que podem, tomam o trem e sobem a serra de Petrópolis. Aproveitam, como Pedro II e sua família, o clima ameno da cidade imperial. Na corte do Rio de Janeiro, fica quem tem que trabalhar. Ou seja, a maioria da população. Dois...

Uma cidade nova no Rio de Janeiro

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Fania Fridman Resumo A história urbana carioca recebeu inúmeras contribuições dos estudiosos sobre as transformações ocasionadas pela chegada da corte em 1808. Sem pretender uma abordagem exaustiva, a autora procura neste texto apontar o tema dos programas de intervenção, denominados urbanismo imperial e planejamento dos barões por expressarem a morfologia deste urbanismo e os ideais da política de gestão do território. http://revista.arquivonacional.gov.br/index.php/revistaacervo/article/view/105

Mocambos e quilombos: o protesto negro no Brasil

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As Américas estiveram por um longo período associadas ao tráfico e à exploração do trabalho de pessoas provenientes majoritariamente do continente africano. Homens, mulheres e, em grande medida, crianças eram obrigados a transmigrarem para diversos pontos, sendo vendidos como bens móveis e constituindo a força de trabalho nos mais variados empreendimentos. Via de regra, quanto maior a plantation, mais mão de obra era consumida, o que demostrava em grande parte a opulência dos senhores de gente. Sem fugir à regra, o Brasil constituiu suas bases econômicas a partir do trabalho compulsório. No primeiro momento, deu-se a apropriação da força de trabalho indígena ou dos “negros da terra”, como também eram chamados. Posteriormente, em maior proporção, veio a assimilação de trabalhadores africanos em condição de escravidão, sendo estes também chamados de “negros da Guiné”. A ideia que durante muito tempo foi difundida na historiografia brasileira sobre a subserviência africana, segundo a qual...

As políticas da desigualdade racial no Brasil: uma república erguida com cotas para os brancos

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Nunca houve nada de propositivo na história da República brasileira visando a melhoria das condições de vida da população negra. Muito pelo contrário, o que se constata é a construção ativa de inúmeras políticas afirmativas para brancos, com cotas para imigração, trabalho, terras e crédito. Quitandeira, c. 1880-1890 (acervo: New York Public Library). Por Leonardo Fabri. No debate público acerca das relações étnico-raciais no Brasil, especialmente no que tange à assimetria existente entre brancos e negros na sociedade, é muito recorrente a ideia de que os quase quatro séculos de escravidão negra seriam o fator nevrálgico para o “estado da arte” da atual desigualdade racial brasileira. No entanto, essa formulação ignora as inúmeras políticas públicas postas em ação, antes e depois da abolição de 1888, responsáveis pela consolidação de nossa demografia racial e a materialidade do racismo. Sem contar a eficácia de “jogar” para um passado longínquo as causas e os proponentes dessa desiguald...