AS TENSÕES CONTRADITÓRIAS DA RENASCENÇA




AS TENSÕES CONTRADITÓRIAS DA RENASCENÇA

MONTAIGNE OU A MUTAÇÃO DO CONHECIMENTO

Nisto também o século XVI evidentemente é um período de transição que, sob muitos aspectos, prolonga as mutações e as fraturas das práticas literárias de fins da Idade Média. Sem pretender expor aqui a inesgotável riqueza da literatura da Renascença, parece-me necessário apresentar três figuras capazes de ilustrar o "trabalho" dos hábitos culturais por esse espaço privado em constituição que já mencionei. Em primeiro lugar, Montaigne. Não pretendemos analisá-lo exaustivamente, nem tampouco a Rabelais ou a Ronsard. A obra desses três escritores excede em muito o ponto de vista extremamente limitado que adotei no presente trabalho. Ler Montaigne, Rabelais ou Ronsard ultrapassa de longe nosso escopo. Eu gostaria simplesmente de lembrar a mutação do conhecimento (e em especial de sua posição) que os Ensaios representam.

Nada neles remonta à suma medieval ou ao comentário escolástico. A suma, os Ensaios contrapõem uma escritura do fragmentário. Ao comentário, que remete a uma obra única por ele glosada, contrapõe um florilégio infinito de fontes e leituras variadas. O que confere coerência aos Ensaios é em primeiro lugar Montaigne, único senhor de suas referências e de suas questões, numa palavra, inventor de sua biblioteca. Conhecendo as frases célebres nas quais Montaigne definiu sua arte de ler (vontade de pilhar, de friccionar o cérebro no de outrem...), podemos preferir esta passagem de "A ociosidade" (I, VIII):

Há pouco tempo retirei-me a minha casa, decidido, na medida do possível, a não fazer outra coisa senão passar em repouso, e no isolamento, o pouco de vida que me resta: parecia--me impossível fazer maior favor a meu espírito que deixá-lo em plena ociosidade, conversando consigo mesmo [...]. Mas percebo que, ao contrário, como o cavalo que escapa, ele dá a si mesmo cem vezes mais trabalho do que assumia em relação a outrem; e me engendra tantas quimeras e monstros fantásticos, uns após outros, sem ordem e sem propósito, que para contemplar à vontade sua inépcia e sua estranheza comecei a arrolá-las, esperando com o tempo infundir-lhes vergonha.

Por trás do tom zombeteiro reconhecemos uma liberdade que quer ser plena, a afirmação dos poderes do eu e da atenção que se deve dar-lhe. Os Ensaios não se cansam de repetir que o conhecimento, e mesmo a sabedoria, em última análise nunca é exterior ao sujeito que o procura, escolhe e ordena. E ele que o constitui, e com isso Montaigne recusa todo conhecimento pré-constituído. Só admite sua existência no processo através do qual o eu interroga as evidências, os conhecimentos estabelecidos, as sabedorias institucionais ou reveladas. Nada é adquirido. Indo ainda mais longe, não só faz de seu eu que lê e pensa o fundador de todo conhecimento, como o transforma em objeto privilegiado de sua reflexão. Aí também não faltam citações. "Aqui estão minhas fantasias, pelas quais não procuro dar a conhecer as coisas, e sim a mim" (II, XX, "Dos livros"), e também:

"Ouso não só falar de mim, como falar só de mim" (III, VIII, "Da arte de conversar").
A afirmação se repete sem cessar e parece uma provocação. Não que lhe seja proibido
falar de si mesmo, mas porque ainda se considera que o eu não é fonte nem de
sabedoria, nem de conhecimento. Ele existe de fato? O interesse pelo eu é, no melhor
dos casos, ridículo e inútil; no pior dos casos é pecado. Lembremo-nos de santo
Agostinho. Montaigne tem perfeita consciência de alterar o ato de escrever, mas não
se culpa por isso. "Este é um livro de boa-fé, leitor. Desde o início ele te adverte de
que não me propus objetivo nenhum, quer doméstico, quer privado: nele não tive
nenhuma consideração em servir a ti ou a minha glória." A advertência "Ao leitor" é
de uma clareza exemplar, pois nela se definem o caráter privado da escritura e um uso
privado da literatura num surpreendente efeito de espelho.
Hist. da Vida Privada

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Seis fotos inacreditáveis do Rio Antigo

Remoções de favelas no Rio de Janeiro (1962-1973)

A Constituição de 1934